De volta

“Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja”

(Fernando Pessoa)

Muito do momento que vivo atualmente começou em 23 de dezembro de 2012, quando assisti ao vídeo “Sustentabilidade: On ou Off, de que lado você está?”:

A partir de então, planejei o que chamei de Operação 2013+OFF, uma tentativa de ir além das interações virtuais e torna-las físicas, também. Sempre fui a maluco por tecnologia, inclusive pela comunicação através das redes. Mas, também sempre fui partidário de que as redes devem ser formas para aproximar fisicamente as pessoas e não de distancia-las com uma falsa sensação de proximidade.

No final de fevereiro de 2013, em uma semana onde a solidão e a tristeza invadiram meus sentimentos, pensei em tirar um “descanso sabático” da rede que mais preenchia meu espaço virtual, o Facebook. Durante três dias tentei não acessar, mas não conseguia e aquilo me fazia mal. Já estava pensando em entrar para o Facebookólicos Anônimos, quando assisti um vídeo onde o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, 87 anos, fala rapidamente – mas com uma profundidade ímpar – sobre os laços humanos, redes sociais, liberdade e segurança:

Quando planejei o 2013+Off, pensei em alguns pontos que Bauman levanta. É óbvio – e já falei acima – que as redes sociais são necessárias, importantes e uma ferramenta de reaproximação. Mas, cabe a nós termos bom senso no seu uso. Nesse aspecto, tem sido muito bom reencontrar pessoas que se distanciaram da minha vida com o passar do tempo ou conhecer melhor outras que nem eram tão próximas e se tornam gratas surpresas em minha vida. O problema é quando, nesse processo, ficamos presos, às vezes de uma forma cruel, à necessidade de atualização e sincronização permanentes, além de acreditarmos em um falso sentimento de pertencimento, nos enganando para pensarmos que não estamos sós. Sei que, talvez, esse seja um defeito só meu. Mas, o confesso.

Então, depois de assistir ao vídeo de Bauman, no domingo (24/2) decidi ficar off-line do Facebook até o final do mês. Esses poucos dias de “descanso sabático” foram interessantes. Li um livro (“3096 Dias”, de Natascha Kampusch), voltei a nadar (3 vezes por semana), voltei a estudar piano, conversei com algumas pessoas, retomei a terapia. O saldo foi tão positivo que pretendo a cada dois meses tirar uma semana assim, longe da correria interativa da rede social.

Mas, fiquei com uma pergunta: O que busco numa rede social? Interação, exposição ou sentimento de pertencimento? Ou um pouco dos três? E, nesse universo, onde encaixar as minhas necessidades de reclusão, intimidade e privacidade?

Não cheguei a uma conclusão. Porém, percebi que aqueles – como eu – que convivem com os fantasmas do desprezo, do abandono e da rejeição possuem um espinho na carne cuja dor tentamos amenizar publicando coisas e esperando um “curtir”, um “compartilhar” ou uma mensagem in box. Mas, na realidade, essa dor só é amenizada graças aos poucos amigos que te fazem sentir querido e amado através de um abraço, de um ombro para chorar, de uma mão segurando a sua quando você está fraco. Amigos que se tornam verdadeiros portos seguros e calmos na nossa jornada em meio do temporal da vida.

Como escrevi um tempo atrás, não existem amigos ou o amigo perfeito. Existem amizades onde duas pessoas buscam a excelência, buscam um relacionamento o mais perfeito possível dentro das nossas dificuldades, imperfeições, falhas, egoísmos e histórias. Amigos verdadeiros respeitam-se mutuamente. Suas falas e seus silêncios. Suas atitudes e seus vacilos. Amigos verdadeiros quase nunca precisam declarar-se um para o outro. Eles sabem o sentimento que os une. Já dizia o rabino Harold Kushner:

“Temos que dar espaço na nossa vida para pessoas que às vezes nos decepcionam ou exasperam. Se esperamos que nossos amigos correspondam a um padrão de perfeição e se eles também nutrem essa expectativa em relação a nós, acabaremos bem mais sozinhos que desejávamos.”

Por outro lado, também percebi que há coisas que temos que fazer por nós mesmos, sozinhos. Por exemplo, muitas vezes somos encarcerados pelos nossos próprios medos e esperamos que outras pessoas nos tirem do calabouço, quando a chave para essa prisão só nós dispomos. Outra coisa que aprendi é que quando começamos a amar o outro sem nos amar primeiro, caminhamos para a dor e para a insatisfação. É necessário aprender a cuidar mais de mim, antes de querer cuidar de outra pessoa. Preciso aprender a me amar mais, para ter amor para com o outro. Tenho que me perdoar, para perdoar o outro. Neste processo, preciso aprender a dizer “não”, a estabelecer prioridades e a buscar discernimento para tomar decisões sábias, ciente de que algumas nem sempre irão me agradar. Uma dessas coisas é a necessidade que temos, às vezes, de apagar algumas coisas – e pessoas – boas que fizeram parte da nossa vida, muitas das vezes até mesmo para preservar essa outra pessoa. O duro é que, para apagar o que aconteceu de bom, a dor e o sofrimento parece ser infinitamente maior do que para esquecer algo ruim. Acredito que isso aconteça porque aqueles que já sofreram muito criam uma espécie de couraça, uma segunda pele que os torna menos sensíveis à dor – e ao mesmo tempo insensíveis para sentimentos bons como carinho e amor. E quando alguém surge e rompe essa couraça, abre-se a possibilidade de se experimentar o que é ser amado, mas também se elimina a proteção e passamos a sentir a totalidade das dores e do sofrimento, principalmente quando, seja qual for o motivo, nos distanciamos de quem proporcionou tal abertura.

Finalmente, nesta semana sabática cheguei à conclusão de que, embora o imprevisível me assuste, o previsível me enfadonha. E, para se caminhar rumo ao imprevisível, preciso de pessoas que também se disponham a vencer seus medos para caminhar comigo nessa jornada ou, na “filosofia Dory”, disponham-se sempre a “continuar a nadar”. Sabedoras que estarão sujeitas à dor e ao sofrimento. Mas, também, que nunca estarão sozinhas. Por isso, aos amigos que sempre estiveram próximos a mim, não só nos momentos alegres, mas também quando eu mais precisei – vocês sabem quem são – , saibam que I’ll be there for you, too, always…

“So no one told you life was gonna be this way
Your job’s a joke, you’re broke, your love life’s D.O.A.
It’s like you’re always stuck in second gear
When it hasn’t been your day, your week, your month,
Or even your year, but…

I’ll be there for you (when the rain starts to pour)
I’ll be there for you (like I’ve been there before)
I’ll be there for you (‘cause you’re there for me too)”

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Sobre Fábio

Indefinido. Abstrato. Prolixo. Jornalista. Músico. Ciclista.
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