Sobre crianças, sociedade, ensino, investimento, oportunidade e sonhos

Já trabalhei muito tempo com crianças, pré-adolescentes e adolescentes, de todas as classes sociais, com diferentes projetos pedagógicos, vertentes sociais e objetivos. E me assusto com algumas argumentações que voltam à tona a cada tragédia que ocorre, principalmente em relação ao tema da redução da maioridade penal. Acredito que as discussões são emocionais, superficiais, imediatistas e, em resumo, nós queremos resolver um problema crônico tratando das consequências e não das causas.

As sanções penais, independentemente da idade do infrator, já provaram ser ineficazes, tornando-se apenas uma medida para “tirar o problema” da nossa frente, “limpar” o espaço urbano, proteger-nos do “inimigo”. Não que eu seja contra a punição. Ela deve haver, ser rigorosamente fiscalizada pelo poder público e aplicada pelo Judiciário.

Por outro lado, também acredito que não seja tarefa do Estado fazer o papel que os pais deveriam – e cada vez mais deixam de – exercer, tais como o de impor limites; ensinar o respeito; saber o momento e a forma de dizer “não”, sempre explicando o motivo; e, acima de tudo, demonstrar preocupação, carinho e amor em todos os atos. Sinceramente, delegar estas obrigações aos professores (em sua grande maioria mal pagos, com condições péssimas de trabalho, em classes superlotadas e diariamente desrespeitados por alunos violentos e amparados pelos pais e pela lei) é insano, desumano e ilegítimo. O mais louco é que alguns professores são heróis e conseguem grandes vitórias. Enquanto tantos outros tombam em virtude das doenças emocionais e físicas.

Mesmo assim, fico espantado – e ao mesmo tempo feliz – quando vejo que um trabalho a longo prazo, como o que venho participando em São Paulo no Projeto Crianças Em Ação, demonstra que é possível, sim, mudar a perspectiva de vida, senão de todas, pelo menos de algumas crianças. Ser considerado o “tio chato” por impor limites, exigir – ou melhor, conquistar – respeito e ganhar a atenção é um prêmio e não motivo de desânimo. Principalmente quando, depois de um tempo você percebe mudanças sutis, mas graduais, na forma de agir daquela criança e descobre que, com o tempo, ela passa a confiar em você e até chega a agradecê-lo.

Doar o que não serve mais em casa ou até mesmo dinheiro para instituições e campanhas televisivas é fácil – alguns até acham bonito. Mas ainda considero que investir tempo e carinho em uma criança é o projeto mais recompensador que existe. Pena que são poucos que pensam e agem assim. Ainda bem que existem estes poucos que ainda sonham.

“Nós
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter”

(Este post foi ampliado de um desabafo publicado por mim, ontem, no Facebook)

Anúncios

Sobre Fábio

Indefinido. Abstrato. Prolixo. Jornalista. Músico. Ciclista.
Esse post foi publicado em Pensamentos vagos, Sociedade e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s