Bits, bytes e vida

Ouvindo uma conversa alheia na viagem de volta do metrô esta noite (meu “esporte” favorito, quando não tenho espaço para segurar um livro e não estou a fim de ouvir música), acompanhei o papo entre um garoto e uma garota que chamou minha atenção. Não por ser interessante, mas porque evocou lembranças de mais ou menos vinte anos atrás.

Os dois discutiam acaloradamente sobre a resolução de um problema, aparentemente de programação em informática. Falavam sobre comandos “while”, variáveis “x” e outros termos da área. Lembrei-me imediatamente dos anos de faculdade, quando desbravava as recém criadas linguagens C++, Java e VisualBasic, mas ainda me divertia com programação em Basic, Cobol, Pascal, Fortran e tantas outras, que estavam com seus dias contados, abrindo espaço para a era da linguagem gráfica.

ImagemPois é… Aprendi a fazer apresentações no HG (Harvard Graphics), o bisavô do PowerPoint; montar planilhas no Lotus 1-2-3, avô do Excel; e a editar textos no WordStar, tio do Word. Era o tempo em que para entrar no diretório raiz, digitava-se algo como “C:” no “prompt” e era necessário memorizar os comandos, pois não havia mouse, nem cursor. “Save”, “Print”, “Exit” eram digitados letra a letra.

A velocidade da comunicação era medida em intermináveis – e quase inalcançáveis – 56 kbps e muitos esperavam para acessar a partir da meia-noite, quando a TELESP (nome da atual Telefonica) cobrava apenas um pulso por ligação! Os nomes do momento eram VideoTexto, BBS, Mandic, iCQ. Mesmo com a conexão lenta, os papos eram longos e divertidos. O armazenamento era feito em disquetes, que constantemente sofriam alguma interferência magnética e eram inutilizados. XT, AT, 286, 386 e 486 eram siglas e números imediatamente associáveis.

InteratividadeNostalgia à parte, essa simples conversa de alguns minutos transportou-me às aulas de lógica de programação. E, mesmo na era de aplicativos e ferramentas de desenvolvimento super evoluídos, acho engraçado que a matéria-prima ainda é a mesma: um código binário, onde a combinação de “uns” (1) e “zeros” (0) determina tudo. Daí, a palavra bit (do inglês Binary Digit). Outra coisa interessante é relembrar o quanto um simples erro ou equívoco pode alterar todo um resultado. Na informática, há a alternativa dos “programas-teste”, dos “betas”, da simulação de resultados, onde se verifica em qual linha está o erro, para corrigi-lo. E foi justamente nesse ponto das minhas divagações que saí do mundo dos bits e dos bytes – como o fiz após “quase terminar” e desistir do curso universitário – e pensei na vida, aquele “programa” em que vivemos fazendo escolhas, alterando linhas de programação e buscando resultados. Porém, na vida, não há a possibilidade de simulação. Toda ação provoca um resultado. E, quando não é o esperado, algumas vezes podemos reparar o erro, outras vezes teremos que conviver com ele.

A velocidade da informação, a capacidade de armazenamento de dados, o acesso à tecnologia, tudo isso está em um crescente. Porém, na minha opinião, nada disso tornou o ser humano mais, literalmente, humano. Ao contrário. Acredito que nos mecanizou, nos padronizou, nos induziu a associar excesso de informação com conhecimento ou, pior, com sabedoria. Sabemos tudo sobre nada e nada sobre tudo. Conversamos sobre banalidades, caminhamos na superficialidade, ao mesmo tempo que nosso eu se afoga na profundidade da nossa dor, da nossa solidão, da nossa dúvida, da nossa crise de identidade, da nossa falta de sentido da vida.

Assim como a mudança de um número na sequência binária – 00011000 é diferente de 00001000 – altera o resultado, nossas escolhas mudam nossa forma de viver a vida e de afetar aqueles que nos cercam. Não somos uma ilha, embora muitas vezes desejemos e tentemos nos isolar desta forma. É inevitável. Nosso silêncio e nossa ação alteram o nosso entorno.

Não sei por que um comado “while” ouvido aleatoriamente levou minha mente a pensar tantas coisas. Talvez, devaneios depois de um dia cansativo. Talvez, uma necessidade de reprogramar algumas linhas do meu programa life.exe.

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Sobre Fábio

Indefinido. Abstrato. Prolixo. Jornalista. Músico. Ciclista.
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