Limites

Hoje me dei conta que há 29 anos eu perdi o medo do escuro e fantasmas. E sem terapia alguma. 1 mês e 9 dias após meu aniversário de dez anos, não tive mais necessidade de dormir com a porta entreaberta e com a luz do corredor acesa ou com abajur. Tudo após passar a noite – e inclusive dormir – em um cemitério. Era o velório da minha mãe adotiva, que em 28 de maio de 1984 cometeu um dos atos mais extremados que alguém pode fazer: tirar a própria vida. Além disso, olhando alguns documentos, também me dei conta que já vivi mais do que ela. Ela cometeu suicídio menos de três meses antes de completar 39 anos.

The BridgeJá há algum tempo queria assistir novamente o documentário “The Bridge” (2006). É um trabalho muito bem feito pelo diretor Eric Steel, baseado em um artigo publicado na revista The New Yorker por Tad Friend, intitulado “Jumpers“. Pois bem, acabo de assisti-lo. E as inquietações que tive quando assisti a primeira vez continuam as mesmas:
1. O que leva alguém a tirar sua vida?
2. Qual o nosso limite? (ou: Temos um limite?)
3. E, se temos um limite, o que fazer quando nos aproximamos dele?

O suicídio, independentemente do motivo, tem o efeito de uma granada. Atinge todos que estão ao redor. Família (pais, irmãos, cônjuge, filhos) e amigos invariavelmente sentirão os estilhaços. O trauma emocional vem acompanhado de perguntas como: “O que eu poderia ter feito para evitar isso?”, “Qual minha parcela de culpa?”, “Por que não percebemos a gravidade?” e, muitas vezes, “Como vamos seguir em frente?”

Há quase trinta anos atrás, não lembro de ter pensado em nada disso. Pelo contrário, aceitei de uma forma quase que natural algo que parecia ser inevitável, afinal já tinha presenciado duas tentativas anteriores. Hoje, conhecendo um pouco mais a história familiar, penso qual seria a saída, depois de internações recorrentes, de uma vida mantida à base de medicação psiquiátrica e, talvez o pior, a falta de confiança nas pessoas que a cercavam – seja por pura paranoia, seja baseada em traumas da infância e adolescência.

Albert Hsu, autor de “Superando a dor do suicídio“, apresenta um termo pouco usado no Brasil, “survivors of suicide” (sobreviventes de um suicídio), que erroneamente muitas vezes é associado àqueles que tiveram uma tentativa “frustrada” de suicídio. Na verdade, os sobreviventes de um suicídio são aqueles que conviviam proximamente com uma pessoa que tirou sua vida. Para Hsu, que vivenciou o suicídio de seu pai, o sobrevivente experimenta “um trauma psicológico igual ao dos soldados em combate. (…) Pelo menos de uma coisa temos certeza: nossa vida nunca mais será a mesma. Se continuarmos viviendo, seremos pessoas que veem o mundo de um modo muito diferente.” Anne-Grace Scheinin escreveu que o suicídio “não acaba com a dor. Ele apenas a coloca debaixo das asas quebradas dos sobreviventes.” Hernandes Dias Lopes, autor de “Suicídio. Causas, mitos e prevenção“, descreve que “a família que convive com um um indivíduo que atenta contra a própria vida fica vulnerável e insegura, além de desenvolver um grande sentimento de culpa em relação ao ocorrido.”

Diferente de outras formas de morte (acidente, doenças terminais, causas naturais), o suicídio muitas vezes é tratado com vergonha e culpa. O assunto fica mais denso quando entramos no terreno religioso. Agostinho considerava que o suicídio não é justificável e Tomás de Aquino que era uma usurpação do poder de Deus. No judaísmo, a “destruição consciente da vida” não recebe os trabalhos funerários do rabino. No islamismo, os suicidas são condenados eternamente. O hinduismo e o budismo também são contra o ato. Hsu cita um pensamento do padre Henri Nouwen sobre “morrer bem” que talvez explique um pouco esse desconforto com a atitude suicida: “Uma boa morte seria aquela que ocorre em solidariedade com os outros.” Percebo isso olhando para o passado, como o assunto da morte da minha mãe foi evitado – e o é até hoje. Porém, concordo com o pensamento do romancistas Edward M. Forster, quando afirma que “se não lembarmos, não conseguiremos entender” – mesmo que não consigamos compreender plenamente.

“Para alguns, o suicídio é uma atitude repentina. Para outros, é uma decisão que foi estudada por um longo tempo e se fundamenta no desespero cumulativo ou em circunstâncias extremas. E, para muitos, é uma mistura dos dois: um ímpeto de agir durante um período em que a pessoa enfrenta um desânimo e desespero suicidas”, conclui a psicóloga Kay Redfield Jamison, em “Night falls fast“. Um assunto difícil, mas que não deve ser ignorado. Anualmente, estatísticas apontam que no mundo inteiro um milhão de pessoas tiram a vida, o que significa uma a cada 40 segundos, sendo a 3ª causa de morte na faixa dos 15 aos 44 anos.

Na minha história pessoal, com o choque vivido pela família, olho para trás e constato que, com a completa desestrutura familiar, o que me sustentou nos primeiros anos foi a intervenção de amigos da igreja onde eu congregava, que se aproximaram e se doaram para fazer parte da minha vida. Nesse ponto, são certeiras as palavras de Henri Nouwen, quando afirma que na comunidade “a compaixão de Deus se faz presente em meio a um mundo desfeito.”

Quanto mais eu leio, quanto mais filmes assisto, quanto mais histórias de famílias enlutadas tomo conhecimento, nenhuma das três perguntas iniciais são respondidas. Porém percebi, assistindo The Bridge, que há pelo menos dois grupos de suicidas. Aqueles que demonstram explicitamente sua dor e seus planos e aqueles que escondem de forma tão perfeita, que sempre demonstram alegria, entusiasmo, interesse e companheirismo. E, na verdade, são dois grupos difíceis de interagir. Afinal, muitas vezes temos dificuldade de passar aos outros aquilo que está em nossa mente, muitas vezes nos atormentando de forma voraz. Às vezes, não queremos demonstrar nossa fraqueza. Outras vezes, não queremos incomodar os outros. E, muitas vezes, nem nós sabemos o tamanho do problema que nos incomoda. De qualquer forma, parece que duas coisas são necessárias: alguém com vontade de falar francamente e alguém disposto a ouvir sinceramente. Claro que há casos onde é necessário a intervenção terapêutica e até mesmo medicamentosa. Mas, talvez uma das maiores necessidades do ser humano seja a de ser ouvido.

Infelizmente, desconheço no Brasil entidades que trabalhem especificamente com os sobreviventes de um suicídio (conhecidas como SOS), como diversas que existem nos EUA. A que mais se aproximaria seria o CVV (Centro de Valorização da Vida).

“A ruína não é o fim da história. Nossa dor é profunda, mas não abrange tudo; nossa perda é tamanha, mas não é eterna; e a morte é nossa inimiga, mas não tem a palavra final.” (Ruth Padilla Eldrenkamp)

“End of our days”, Howie Day (trilha do documentário “The Bridge”)

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Sobre Fábio

Indefinido. Abstrato. Prolixo. Jornalista. Músico. Ciclista.
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