O início?

Podem me chamar de retrógrado, atrasado e até de velho. Podem me acusar de ser influenciado por matérias como OSPB (Organização Social e Política Brasileira), EMC (Educação Moral e Cívica), Estudos Sociais. Desculpe, nasci no período da ditadura e sei qual era a finalidade desta grade curricular. Pelo menos, meu colegial (antigo nome do atual ensino médio) foi depois do movimento Diretas Já, no recém-conquistado período democrático. E, melhor ainda, tive o privilégio de estudar em um ótimo colégio, onde optei pela área de Humanas e tive aulas primorosas com professores de História, Literatura, Filosofia. Lógico que conscientização, patriotismo, exercício de crítica, respeito pelas diferenças e tantos outros valores não se ensinam na escola, mas são formados no decorrer do crescimento, desde a infância. Mas, mestres que estimulam a crítica – mais do que meramente “ensinar” conceitos – podem provocar grandes mudanças nas mentes dos adolescentes e jovens. Agradeço a muitos deles pela minha atual formação.

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Bom, relembrei essas coisas ao voltar para casa após participar do chamado “6º grande ato contra o aumento da passagem”, que mais uma vez paralisou o centro histórico e o centro financeiro de São Paulo. Percebi uma manifestação pacífica, claro que com intercorrências locais, como o infeliz ato de um pequeno grupo na sede da prefeitura paulista e atos de vandalismo isolados e coibidos pelos próprios manifestantes no decorrer da passeata.

Ah, e por que citei aquelas velhas matérias no primeiro parágrafo? Elas vieram à lembrança no momento em que decidi voltar para casa, quando me deparei um pequeno grupo de jovens, que já vinha a algumas quadras da Avenida Paulista tentando inflamar a multidão, incitando à violência. O pior de tudo, covardes, pois praticamente todos estavam com os rostos cobertos. Em determinado momento, quando estávamos em frente ao MASP/Trianon, pediram a um manifestante que passava para que cedesse a bandeira do Brasil que ele carregava. A finalidade? Queimá-la. Um deles já estava com o isqueiro na mão, momento em que alguns manifestantes – eu, entre eles – o impedimos. Foi um momento tenso. Depois de vir de forma truculenta para cima de nós, nos chamarem de “moralistas” (e nós os chamarmos de “anarquistas de boutique” e gritarmos “mostra sua cara”), o grupo desistiu e seguiu caminho.

Bandeira-do-BrasilFiquei indignado. Sei que valores como o patriotismo estão desgastados, desajustados e deturpados. Mas, também acredito que o amor ao país e o sentimento de coletividade são imprescindíveis para as mudanças que nossa sociedade tanto necessita. Desde pequenos atos como devolver o troco recebido a mais, sempre respeitar as leis de trânsito, conservar o patrimônio público até – e principalmente – votar de forma consciente e acompanhar e cobrar o mandato daqueles que foram eleitos.

Tenho conhecimento que alguns dos amigos são contra essas manifestações. Eu não sou. Mesmo tendo minhas críticas e sendo franco ao admitir que vejo muitos pontos negativos. Por exemplo, tanto nas explanações no terreno virtual quanto na passeata de hoje, percebi que é nítido o sentimento de estar em um grande navio, seguindo por mares bravios, porém sem um timoneiro para dar a direção. Pautas não estão bem definidas, objetivos não foram traçados, estratégias precisam ser desenvolvidas. Porém, o ponto positivo é que o povo resolveu se mobilizar. Saiu do sofá, do ativismo virtual na frente dos computadores em suas casas e foi para a rua. A indignação não está mais apenas nas conversas de bar, nos comentários no serviço. Os meios de comunicação, como a Rede Globo e a revista Veja, começam a ser amplamente questionados. Enfim, a necessidade de uma mudança radical na esfera política brasileira parece que vem à tona.

Vai acontecer? Não é possível prever. Mas, alguma coisa, algum movimento teria que acontecer para que uma mudança tenha início. Espero que seja o sinal de que uma semente de consciência e conscientização foi lançada. E como toda a semente, será preciso tempo para descobrirmos quais frutos serão colhidos no futuro.

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Sobre Fábio

Indefinido. Abstrato. Prolixo. Jornalista. Músico. Ciclista.
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Uma resposta para O início?

  1. Ivany disse:

    Acho que os organizadores do movimento Passe Livre não estavam preparados para a reação que se seguiu. O povo aproveitou a “deixa” e saiu às ruas para desentalar todos os outros motivos de protesto acumulados em anos e anos de safadeza e corrupção. A carestia também tem afetado a vida dos brasileiros. Então, concordo quando você diz das pautas não bem definidas. Mas estou feliz por ver que tudo aquilo que ficamos repetindo e repetindo em redes sociais se materializou, finalmente, em atitude de repúdio. Vamos aguardar, vamos ter paciência porque são muitas mudanças que precisamos e não será fácil consegui-las. Estamos mostrando os dentes para o governo e para todos os políticos que estão há séculos deitando e rolando às nossas custas. Estou me sentindo representada por você na manifestação. Não tenho a sua coragem para participar.

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