Tempo perdido?

Fazer nada parece um grande tempo perdido. (Marcelo Gleiser)

A hiperconectividade – e a ansiedade por ela gerada – nos impede de desacelerar. E, assim como temos medo da solidão física, parece que cada vez mais tememos a solidão virtual. Desconhecemos o verdadeiro sentido, prazer e necessidade dos momentos de solitude, de silêncio, de parar até mesmo os nossos pensamentos. E quando sabemos que isso é necessário, simplesmente não conseguimos desligar a “chave geral”.

Fazemos parte de uma era onde todo tempo deve ser aproveitado, otimizado e produtivo. Saímos em período de férias e nos perdemos com a quebra da rotina, falta de tarefas, “tempo disponível”.

Outro dia conversava com um amigo que não se liga em comemorações de aniversário ou passagem de ano. Falávamos que o tempo é contínuo. 31 de dezembro é um dia igual a 1º de janeiro. Ambos têm 24 horas, manhã, tarde e noite. Mas é latente ao ser humano a necessidade de estabelecer marcos em sua vida, em sua história. Ciclos com começo, meio e fim. E, ao fecharmos um ciclo, é comum planejarmos como será o próximo. Não que isso seja negativo ou prejudicial, porém pode assim se tornar quando excluímos das nossas projeções que vivemos em um ambiente social e estamos sujeitos à imprevisibilidade dos fatos.

Apesar de – ou por causa de? – hiperconectados, temos nos tornado cada vez mais individualistas. E muitas vezes nossos planos só preveem nosso bem estar, nossa ascensão, nossa segurança, a despeito até daqueles que nos rodeiam e chamamos família ou amigos. É bem verdade que temos que pensar em nós. Mas, se a nossa projeção para futuro não incluir nosso entorno, corremos um sério risco de nos tornar bem sucedidos, porém em uma redoma de vidro intransponível (tanto para sair dela, quanto para alguém entrar).

Além disso, se não aprendermos a lidar com “acidentes de percurso”, erros de planejamento e fatores externos desfavoráveis, a frustração pode tomar conta e minar todas as nossas forças, quando na verdade deveríamos desvia-las para partir para um “plano B” ou simplesmente “abortar a missão”, mas de forma consciente e positiva.

Fecho um ano difícil, turbulento e onde a imprevisibilidade pode ser uma das palavras que o resume. Desta vez, não tenho grandes planos para 2014. Brinco com amigos que chegou a hora de parar de sobreviver, para começar a viver. E, ao ler o artigo de Marcelo Gleiser hoje (confira aqui na íntegra, em inglês), até me animei a escrever o último post do ano neste blog, o que me levou a três pontos de reflexão:

– A vida existe e é muito mais divertida e real fora do mundo dos bits e bytes. A conectividade é necessária em nossos tempos, mas temos que aprender a estabelecer períodos regulares de “desintoxicação virtual” (aprendi o termo “detox” este ano…). Desligar a internet, desconectar o WiFi, às vezes até mesmo desligar o celular. Seja para simplesmente não fazer nada e aprender a “gostar mais da nossa companhia”, seja para curtirmos a natureza, seja para estarmos com a família ou com os amigos, não de forma parcial, mas inteira, completamente presentes e disponíveis;

– Se os planos para futuro não integrarem aqueles que nos cercam (família e amigos) e a sociedade como um todo (sustentabilidade, solidariedade, crescimento comum), podem até propiciar realização social, financeira e profissional, mas sempre deixarão um vazio interior;

– O imprevisível faz parte da caminhada. Talvez até seja o que a faz se tornar um desafio interessante. Porém, as decisões erradas, as decepções em razão de falhas de caráter, honestidade ou transparência de outras pessoas ou tantos outros fatores imprevisíveis, em nenhum momento devem nos impedir de continuar. A frustração é inevitável, mas deve ser passageira e o que a gerou tornar-se um ensinamento para nos fortalecer e evitar erros futuros. Passado o luto (período vital a qualquer tipo de perda), segue-se adiante.

Pode ser que você não concorde com algum dos pontos da minha reflexão. Ou com todos! Talvez daqui uns dias ou meses, eu leia e nem eu mesmo concorde… De qualquer forma, agradeço o tempo que você dispensou para essa leitura. E, tendo interesse, fique à vontade para expressar sua opinião. Aqui ou na página do blog no Facebook: http://www.facebook.com/fertilmente. No mais, um ótimo 2014!!!

ano melhor

TEMPO PERDIDO

(Renato Russo)

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem
Selvagem
Selvagem

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão Jovens
Tão Jovens

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Sobre Fábio

Indefinido. Abstrato. Prolixo. Jornalista. Músico. Ciclista.
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