“Ajuda na minha incredulidade!”

“Quando o tem, você tem tudo, mas também perde tudo quando o perde. Fique com Cristo, embora seus olhos não o vejam e a razão não o alcance.” (Martinho Lutero)

Nos últimos tempos, não foram poucas as “noites escuras da alma” pelas quais passei. João da Cruz, místico do século XVI dá esse nome para aqueles períodos onde Deus deixa algumas pessoas “numa escuridão tão grande que eles, com suas imaginações e reflexos dos sentidos, não sabem para onde ir. Não conseguem avançar um único passo na meditação, como antes faziam, pois o sentimento interno agora está esmagado nessa noite e abandonado a uma aridez tão grande que já não têm nenhuma alegria ou doçura nos exercícios espirituais, como tinham antes, e no lugar delas só encontram insipidez e amargura.” (João da Cruz, em: A noite escura da alma).

Outro dia, em um bate-papo informal, questionava-se o que era fé. Várias passagens bíblicas foram declamadas, até que fui questionado. Pensei um pouco e respondi: “Fé, para mim, é crer naquilo em que não acredito”. Um silêncio se fez, acho que não fui bem compreendido.

Perdoe-me. Sou orgulhoso, arrogante, egoísta, impulsivo e desesperado. E, muitas vezes, descrente. Por isso, clamo, como o pai desesperado da passagem do Evangelho segundo S. Marcos: “E Jesus disse-lhe: ‘Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê’. E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: ‘Eu creio, Senhor! Ajuda (n)a minha incredulidade’.” (Marcos 9.23-24).
É difícil escrever sobre isso. Primeiro, porque acredito que fé é um conceito, uma vivência pessoal e intransferível. As experiências que vivi fazem parte do que eu sou e, na minha opinião, são adequadas a mim. Não posso querer que outra pessoa viva a mesma coisa ou aceite que esta seja a coisa certa. A mística e a espiritualidade não têm um manual de operações, nem são uma receita de bolo, onde se adicionam ingredientes e se obtém o resultado previsto. O que funciona para mim, talvez não funcione para você. Por que escrever, então? Acredito que, ao compartilhar minhas experiências pelo caminho da incredulidade, possa estimular outros a percorrerem seus próprios caminhos e encontrarem a claridade após passarem pelas suas noites escuras da alma.

Orgulho

“O medo não é um ponto ruim para começar uma jornada espiritual (…). A conversão significa começar com quem somos, não quem gostaríamos de ser.” (Kathleen Norris)

O medo é uma característica associada à covardia, atualmente. Somos criados e chamados a ser destemidos, ousados. E isto me torna orgulhoso e dono de mim mesmo. Sou senhor do meu destino e nada poderá me abalar. Traço planos, tomo decisões. Muitas vezes, sou bem sucedido, o que me dá a falsa sensação de estar no caminho certo.
Mas, é inevitável sentir medo em algum ponto da jornada. Principalmente quando as coisas não caminham como previ. Só ao admitir que sinto medo, que tomo consciência de quem realmente sou: nada; pó. Incapaz de aumentar minha estatura (às vezes, até de diminuir meu peso…) ou acrescentar um segundo à minha vida. Nesse ponto, posso esvair à depressão, à insegurança ou perceber, mais uma vez, que sou objeto da Graça e do Perdão. Porém, para ser agraciado e perdoado, preciso deixar o orgulho de lado. E a arrogância.

Arrogância

“Viver em paz com o mistério é um elemento chave na manutenção da fé.” (Ruth Tucker)

Na era das informações, sabemos tudo sobre nada e nada sobre tudo. Os meios virtuais nos possibilitam saber o que se passa no nosso bairro, na nossa cidade, no nosso país, no mundo e até no Universo. Imagens e notícias em tempo real nos cercam. Dominamos assuntos que gostamos – às vezes, até alguns que não curtimos – só pelo prazer de saber mais do que outras pessoas. Queremos saber tudo, ler sobre tudo e, pior, mostrar que sabemos tudo.
Mas, quando sou colocado frente a frente com o mistério, quando as luzes se apagam e o medo invade a minha alma em meio à escuridão, minha arrogância muitas vezes me leva a não admitir minha incapacidade de reagir. Rebelo-me tal como uma criança mimada, tentando mudar a opinião dos pais sobre uma negativa ou uma repreensão.
Preciso ser confrontado, constantemente, com minha ignorância. Ao admitir que, na verdade, diante da complexidade do universo, nada sei, vejo então que minha arrogância é totalmente inadmissível. E isso me mostra que não sou mais especial do que ninguém. O que não dá razão nenhuma para ser egoísta.

Egoísmo

“As pessoas têm medo: medo dos sentimentos íntimos, medo das outras pessoas e também medo do futuro”. (Henri Nouwen)

Não quero justificar nada, apenas tentar explicar. Minha história de vida é uma história de abandonos e rejeições. Resumidamente, rejeitado ao nascer, não totalmente querido pela família adotiva, abandonado de forma trágica pela mãe adotiva aos dez anos, quando esta se suicidou. Cresci formando uma parede de proteção à minha volta, evitando relacionamentos profundos e sempre desconfiado da real intenção das pessoas.
Quando você cresce dessa forma, é quase inevitável que se torne uma pessoa egoísta, que só pensa em si mesmo. Muitos me consideram, até, insensível. Talvez os mesmos que não saibam o tamanho da dor de ser assim. Pensar sempre que está sendo usado ou usando as pessoas, não desfrutar a liberdade e a totalidade dos relacionamentos, viver sempre em cima do muro, muitas vezes fazer coisas contra a vontade para se sentir incluído em um meio.
O egoísmo me distancia das pessoas, mesmo daquelas que estão perto; impede que eu admita meus medos; dificulta que eu procure e encontre o EU que está dentro de mim. Ou seja, o egoísmo me torna um sobrevivente e não um ser vivente. E, ao pensar só em mim, na minha felicidade, em levar vantagem, acabo muitas vezes agindo impulsivamente.

Impulsividade

“As pessoas impacientes estão sempre esperando que a realidade aconteça num outro lugar e, por isso, estão inquietas para ir a outro lugar.” (Henri Nouwen)

Quando penso em fé e em tempo, minha cabeça dá um nó. Parece que fui criado de forma que toda ação merece uma reação. Toda frase dita precisa de uma análise minha. Tenho dificuldade em me calar e, às vezes, pago um alto preço por isso.
Talvez por isso mesmo o medo tome conta de mim quando fico sem reação. E um dos momentos que mais tiram a minha capacidade de reagir é quando a fé se esvai. William Shannon descreve de forma muito clara esse sentimento: “O Deus que nós pensávamos ter conhecido nos é tirado e a mente não consegue pensar nEle. A alegria de sua presença desapareceu porque já não conhecemos Aquele que está presente. Nem mesmo temos certeza de que Alguém sequer esteja presente. A vontade que outrora amava a Deus com tanto ardor parece incapaz de amar, porque o objeto amado parece ter desaparecido numa escuridão impenetrável. Já não temos Ninguém a quem sequer orar; por isso perdida está a doçura da oração. A meditação torna-se impossível, até mesmo detestável”.
Quando a noite escurece a alma é como quando andamos em uma estrada sem iluminação à noite e a tendência é que fiquemos parados. Só que a impulsividade me leva a tentar tatear o caminho, sair dali o mais rápido possível. Mesmo que corra o risco de cair em buracos, sair do caminho, despencar por despenhadeiros. Quando isso acontece, a noite continua escura, mas agora além do medo, a dor também vai me acompanhar dali pra frente.
Quando sou colocado diante de uma situação onde não tenho para onde ir, que minha impulsividade é travada, todas as coisas que descrevi vêm à tona: orgulho, arrogância, egoísmo e impulsividade. É nesse momento que me desespero.

Desespero

“Esperar não é uma atitude muito popular. Esperar não é algo pelo qual as pessoas têm muita simpatia. Na verdade, a maioria das pessoas acha que esperar é uma perda de tempo. Talvez isso se deva ao fato de, basicamente, a nossa cultura resumir-se a: ‘Ande! Faça alguma coisa! Mostre que é capaz de se distinguir dos outros! Não se limite a ficar aí, de braços cruzados, esperando!’. Para muitas pessoas, esperar é um deserto árido entre o lugar em que se encontram e o lugar para onde querem ir. E as pessoas não gostam de um lugar assim. Querem sair dele fazendo alguma coisa.” (Henri Nouwen)

Tá aí um capítulo que admito que não tenho capacidade de escrever muito. Sou pego, muitas vezes, em desespero. Uma frase, um fato, um olhar e em um segundo vou do céu ao inferno, me descontrolo, me desespero. Nouwen tem sido meu companheiro nessa jornada em busca da esperança. Ele admite: “A espera incerta é difícil, por termos a tendência de esperar por algo muito concreto, por algo que queremos possuir.” Ou seja, para alguém arrogante, orgulhoso e egoísta, a espera por algo incerto é inadmissível, muito mais a espera por algo que não seja de acordo com o que eu quero, aquilo que eu acho que é o certo. Nouwen considera que a verdadeira espera é ampla: “Esperar estando aberto a todas as possibilidades é uma atitude extremamente radical perante a vida.
Detesto esperar, admito. Assim como detesto admitir minha ignorância, minha impulsividade, meu egoísmo. Mas, durante minhas últimas noites escuras da alma, tenho aprendido que um dos mecanismos para reverter essa situação é a confissão. Confessar minha incredulidade e meus defeitos me expõe, mas me coloca no caminho da busca da volta à espiritualidade sadia, da cura da minha incredulidade. Aprendi que é impossível sair dessa escuridão sozinho. Por isso, precisamos de amigos nessa jornada. Por isso, Nouwen diz que esperar é “acima de tudo, esperar juntos.”.

E agora?

“Felizmente, crer, assim como escrever, é mais um processo do que um produto e não é, rigorosamente falando, uma atividade voltada para um objetivo. Não há um limite de tempo.” (Frederick Buechner)

Ruth Tucker, no livro Fé e Descrença, revela: “Em minha própria peregrinação espiritual, que começou na infância, a dúvida e a fé tem coexistido. Não é uma condição que escolhi para mim e não é algo que eu possa eliminar – nem necessariamente o desejaria. A dúvida traz tensão e vitalidade à minha fé; está sempre me desafiando a ir mais fundo (…)”.

Espero que você não esteja enfrentando uma noite escura em sua alma nesse momento. Eu estou caminhando em busca da saída destas trevas dolorosas e sou grato pelos (poucos) amigos que têm me acompanhado pessoalmente e pelos (muitos) amigos que ajudam através das suas experiências registradas em livros, blogs, etc. Mas, também desejo que esse texto o auxilie quando este momento chegar ou a você ajudar alguém nesta situação. Uma coisa importante é saber que esse momento que parece eterno e nunca vai acabar é uma fase e que é possível sair dela.

“Não peço sonhos ou êxtases proféticos
nem o rasgar repentino do véu de argila
não quero a vista de anjos, nem os céus abertos
mas, tira a treva da minha alma.”
(Tradução livre da segunda estrofe do hino Spirit of God, Who dwells wif heart, de George Croly – íntegra abaixo)

“Spirit of God, who dwells within my heart,
wean it from sin, through all its pulses move.
Stoop to my weakness, mighty as you are,
and make me love you as I ought to love.

I ask no dream, no prophet ecstasies,
no sudden rending of the veil of clay,
no angel visitant, no opening skies;
but take the dimness of my soul away.

Did you not bid us love you, God and King,
love you with all our heart and strength and mind?
I see the cross there teach my heart to cling.
O let me seek you and O let me find!

Teach me to feel that you are always nigh;
teach me the struggles of the soul to bear,
to check the rising doubt, the rebel sigh;
teach me the patience of unceasing prayer.

Teach me to love you as your angels love,
one holy passion filling all my frame:
the fullness of the heaven-descended Dove;
my heart an altar, and your love the flame.”

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Dez experiências que te habilitam a dizer “eu vivi a vida – e não apenas passei por ela”

#1 descer uma ladeira de bicicleta em alta velocidade, em um dia de chuva;
#2 levar um fora de um grande amor;
#3 ser pego colando em uma prova;
#4 pular despreocupadamente com os dois pés em uma poça d’água;
#5 dançar com seu grande amor em um baile de formatura (mesmo que nenhum dos dois saiba dançar…);
#6 contemplar o nascer do sol (de preferência em uma montanha e acompanhado);
#7 perder um animal de estimação querido;
#8 mudar de casa pra uma cidade distante e deixar amigos e lugares especiais e queridos;
#9 ter uma experiência mística (ou espiritual) com o divino;
#10 chorar ao ler um livro e/ou ao assistir um filme.

E aí? Algo a acrescentar? Deixe nos comentários!

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Recálculo de Rota – ou – Sobre correr riscos

Quem nunca experimentou a sensação de descer uma big de uma ladeira de bicicleta, a milhão, em um dia de chuva, não sabe o que é viver!!! Fora a delícia que é em si, nada se compara com aquela percepção de que, se você precisar do freio, ele não vai servir pra nada!!!Imagem
Se não corrermos riscos, optarmos por nunca sair da nossa zona de conforto e dermos um basta na mediocridade, nunca experimentaremos alguns prazeres, até simples, da vida.

Eu sempre busquei e vivi em minha área de conforto. Trabalhei minhas escolhas dentro do chamado “risco calculado”, onde se pesam prós e contras e se analisa a possibilidade de dar certo ou errado e, principalmente, se der errado, quais serão os danos decorrentes.

Mas, em meio ao desejo de correr riscos, nossa sociedade prega a impossibilidade de errar. Repetir de ano, ser demitido, terminar um relacionamento são coisas intoleradas, criticadas e que, muitas vezes, excluem a pessoa de um círculo social e até mesmo de amizades.

Hoje, andando de bicicleta pela cidade de São Paulo, fiz a rota mais improvável para unir dos pontos. Andei quase 20 km pra uma distância de menos de 10 km. A cada rua, avenida, optava por me distanciar e criar uma nova rota. Lembrei-me de uma frase comum nos aparelhos GPS, quando não fazemos a vontade da Gabriela, Fernanda, Felipe, Fabio-  ou seja lá qual nome você escolheu – e somos avisados: “Recalculando rota”. Isso vai acontecer mesmo quando eles te mandarem entrar em uma contramão ou seguir em frente por um desfiladeiro. A rota traçada – e supostamente correta – é a que você deveria seguir cegamente.

Parei pra me hidratar e comecei a lembrar que sempre me gabei de conseguir tirar da manga, rapidamente, um plano B, de recalcular rapidamente minha rota e correr riscos de forma mínima. Mas vi que nos últimos anos não consegui nem formular o plano A! Cada passo que dava, meu GPS interior apitava e informava em alto e bom som: “Recalculando rota”. Sentia que, se eu ficasse parado, ainda receberia um aviso de que estava no caminho errado!

Depois de quase desistir, tomei a decisão de não ficar parado. Comecei a andar. Cansado, sem forças. Pedi ajuda a alguns poucos amigos próximos. Alguns outros perceberam o que estava acontecendo, ao longe, e me acolheram. Muitos outros olharam e passaram ao largo, tal como os religiosos e poderosos da parábola do Bom Samaritano. Desses, alguns ainda aproveitaram para lançar palavras de crítica, sarcasmo e negatividade.

Enfim, o mais interessante é que na caminhada meio sem rumo, comecei a reencontrar outros tantos amigos, de dez, vinte anos atrás, que parecem que também passaram este tempo andando em círculos. Passos em falso, topadas na parede, quedas em buracos imensos. Tanta gente machucada, ferida, desgostosa e, pior, sem esperanças. E a maior parte das dores vem de duas áreas – afetiva e espiritual – porém centrada em uma palavra: relacionamento. Relacionamentos doentios com familiares, com parceiros e, para aqueles que têm uma religião, com a comunidade em que estão inseridos (ou excluídos). Pessoas que conheciam a Graça, a Misericórdia e o Perdão, mas não conseguiam sentir isso em suas vidas. Apenas viviam a culpa, a acusação e a condenação.

Encontrei gente triste porque correu riscos e se deu mal. E encontrei outros tantos, tristes por não ter corrido riscos e não ter uma história pra contar. Mas, em quase todas as histórias, vi gente sozinha, tentando correr uma corrida de revezamento sem a ajuda de ninguém, tentando remar um bote no meio da tempestade sem forças e sem ajuda. Perguntei-me – e a eles: “Por que nos abandonamos?”. Ainda não conseguimos achar respostas.

Bom, então será que vale a pena correr riscos? Acredito que sim. Encontrei gente, também, feliz por ter apostado em algo e feito isso valer a pena. E outros, felizes, mesmo por não ter dado certo. Voltando às pedaladas, lembrei-me hoje das inúmeras vezes que descia de bicicleta uma ladeira na rua do lado da minha casa, quando tinha 9 ou 10 anos. Contrariando todas as expectativas – havia um cruzamento perigoso – sobrevivi. Não sem cair inúmeras vezes. Não sem ralar no asfalto, o que me faz carregar algumas cicatrizes até hoje. Mas – provavelmente já escrevi isso antes, desculpe – as cicatrizes são as marcas de quem sobreviveu. No corpo de quem morre, não forma cicatriz, simplesmente apodrece e vira pó. Se carregamos cicatrizes, é porque passamos algo intenso e sobrevivemos. Minhas cicatrizes são marcos de alegria da sobrevivência, de algo cuja memória poderia trazer tristeza, mas quando as olho, só posso agradecer o dom da vida e renovar a esperança.

Termino esse domingo consciente de que não tenho mais medo de correr riscos. Vou pagar o preço de erros e vou aproveitar os acertos. Também não tenho mais medo de recalcular a rota. Acredito que nossos caminhos mudam, de acordo com as circunstâncias, com os interesses, com as pessoas que passam a caminhar conosco, com o aprendizado da vida, com o parar para ouvir a voz divina e com o intuito de fazer bem ao outro, nunca prejudicar ninguém e buscar, sim, ser feliz, de forma honesta, transparente e verdadeira.

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Expectativas

No quesito expectativas, sou um grande fracasso. Geralmente, as jogo ao mais baixo patamar, para que não me decepcione quando as outras pessoas não agem de acordo com o que eu gostaria. E, mesmo preparado, me frustro quando isso acontece.

Perfeccionismo, orgulho, falta de confiança. Talvez, aí estejam alguns dos problemas que nos impedem de delegar tarefas, aceitar defeitos, acatar nossa falibilidade e nossas limitações. E isso torna muito mais difícil qualquer tipo de relacionamento. No trabalho, pode nos tornar tiranos, principalmente se liderarmos alguém; na família, pode nos impedir de amar, pois nunca vamos nos sentir correspondidos; e, talvez o pior, conosco, pois somos tão “auto-exigentes” que acabamos por minar nosso amor próprio.

Mas, o que não é a vida, senão um grande aprendizado? Infelizmente, nossa natureza humana pecadora aprende mais com os erros do que com os acertos. Confesso minha dificuldade em aceitar de alguém menos do que o que eu possa oferecer. Aprendi, no decorrer dos anos, através de exemplos de vida, a buscar nada mais do que a excelência naquilo que faço. Antigamente, equivoquei-me pensando que isso significava “buscar ser sempre o melhor”. A frase é bonita, mas a tentativa de executá-la pode levar à frustração ou à fadiga extrema. Cheguei à conclusão de que preciso “buscar ser o melhor que eu possa ser”. Ou seja, preciso cientificar-me das minhas limitações e, principalmente, das limitações daqueles que me cercam. E preciso aprender a ser humilde e a apreciar e elogiar quando alguém se sai melhor do que eu em alguma tarefa.

No campo dos relacionamentos isto é ainda mais complicado. Não se trata de um job a ser efetuado para um cliente, uma meta a ser alcançada. Trata-se de trabalhar o amor próprio e o amor ao outro. Pensei nisso nessa madrugada, quando fui acordado para meditar um pouco sobre o assunto. E meu companheiro nessa reflexão, mais uma vez, foi o Pe. Henri Nouwen:

Coloque limites para o seu amor

Quando as pessoas lhe mostram os seus limites ( “eu não posso fazer isso por você” ), você se sente rejeitado.  Você não pode aceitar o fato de que outros não possam fazer por você tudo aquilo que você espera que façam. Você deseja amor sem limites, carinho sem limites e doação sem limites.

Parte de sua luta é colocar limites para o seu próprio amor – algo que nunca fez. Você dá o que quer que seja que as pessoas esperam de você e, quando pedem mais, dá mais, dá mais, até que sinta exausto, usado, manipulado. Somente quando for capaz de fixar as suas próprias limitações você será capaz de reconhecer, respeitar e até agradecer as limitações de outros.

Diante das pessoas que lhe são queridas, suas necessidades vão aumentando, até que elas se sentem tão sufocadas pela sua carência que, a fim de sobreviver, são praticamente forçadas a deixá-lo só.

A grande tarefa é a de reintegrar-se em si mesmo, de modo que você possa manter as suas necessidades dentro dos seus próprios limites, controlando-as na presença daqueles que ama. A verdadeira reciprocidade no amor exige que as pessoas sejam donas de si mesmas e possam doar-se enquanto permanecem fiéis à sua própria identidade. Assim, para ser capaz de, ao mesmo tempo, dar com mais generosidade e respeitar suas próprias necessidades, você precisa aprender a colocar limites ao seu amor.

(Henri Nouwen, in: A voz íntima do amor. Uma jornada da angústia para a liberdade) – grifos do autor do blog

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Podemos ter sonhos?

O prolixo se rende a uma pergunta: Ainda posso sonhar?

“Somos quem podemos ser.

Sonhos que podemos ter.

(…)

E teremos”

Sem palavras para essa interpretação do Pouca Vogal (gessinger + leindecker)…

Somos Quem Podemos Ser
(Humberto Gessinger)

Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção

E tudo ficou tão claro
Um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro
Um disparo para um coração

A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez

Nós
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Um dia me disseram
Quem eram os donos da situação
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem essa prisão

E tudo ficou tão claro
O que era raro ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum

A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez

Nós
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção

Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem

Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

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Madrugadas insones

“Quando se está só”, letra do saudoso Sérgio Pimenta, é uma canção recorrente em meus momentos de solidão. Em 2008, foi assim durante dois períodos de internação. E, agora, no final de 2012 e início de 2013, ela voltou a me fazer companhia em algumas noites e madrugadas. Uma música triste. Mas, uma música de esperança.


Neste programa Plataforma, o amigo, músico e pastor Nelson Bomilcar não só traz uma bela interpretação da música, como também um explanação do sentido dela. Neste arranjo, o violão preciso de outro amigo, Maurício Caruso, além do sax de Felipe Figueiredo.

Para quem curte curiosidades, Bomilcar – que compôs a melodia – conta como se deu mais esta parceria: “Visitando o amigo Sérgio Pimenta no hospital, em seus últimos dias de vida, recebi dele esta letra para que a musicasse e que procurasse transmitir o que ele sentia nas madrugadas no hospital. Creio que consegui. Esta foi sua penúltima letra (…)”.

Quando Se Está Só
Sergio Pimenta/Nelson Bomilcar

Quando se está só, o silêncio é mais profundo,
As noites são mais longas, o frio mais intenso;
E até a própria sombra parece estar mais junta,
Como se soubesse quando se está só.

Quando se está só, um grito é desespero,
Sussurro é loucura, o estalo mete medo;
E a mão forte aparece e está sempre nos sonhos,
Eternos pesadelos quando se está só.

Quando se está só, se está porque deseja,
Pois ele com certeza não foge de ninguém;
Deus está sempre perto, amigo, abraço aberto,
Convida a ir com ele pra não mais estar só.

Pra não mais estar só.

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Um dia de domingo

Saí do primeiro culto de 2013 agora à noite e a primeira música que me veio à cabeça foi um hino? Não… Mas, até que poderia ser – se você forçar um pouquinho a interpretação, como essa minha mente fértil o fez:

Um Dia de Domingo (Tim Maia)

Eu preciso te falar
Te encontrar
De qualquer jeito
Pra sentar e conversar
Depois andar
De encontro ao vento

Eu preciso respirar
O mesmo ar que te rodeia
E na pele quero ter
O mesmo sol
Que te bronzeia

Eu preciso te tocar
E outra vez
Te ver sorrindo
Te encontrar num sonho lindo

Já não dá mais pra viver
Um sentimento sem sentido
Eu preciso descobrir
A emoção de estar contigo
Ver o sol amanhecer
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo

Faz de conta que
Ainda é cedo
Tudo vai ficar
Por conta da emoção

Faz de conta que
Ainda é cedo
E deixar falar a voz
Do coração

O grande e saudoso Antonio Maia cantava a espera do reencontro com uma pessoa amada. Mas, ao ouvir na saída da igreja os desejos de “uma boa semana”, comecei a pensar com que tipo de Deus algumas pessoas se relacionam. Será um Deus que só “trabalha” aos domingos? Um Deus que só tem tempo para falar conosco, ouvir nossas preces e músicas em duas ou três horas de um dia específico da semana? Um Deus que só procuramos pra sentar e conversar por alguns instantes, pra suprir nossos desejos, anseios e desabafos?

Aí, lembrei-me de algumas frases de Philip Yancey, no livro: “Igreja: Por que me importar – Redescobrindo a alegria de viver em comunidade”:

“Seguir a Cristo é uma coisa, seguir os crentes ao lugar de cultos aos domingos, é outra totalmente diferente”

“Quanto mais se fica longe da igreja, mais estranha ela nos parece”

Nesta noite de domingo, o Rev. Valdinei Ferreira pregou sobre o tema “Prioridades” e usou como base o texto bíblico de Lucas 10, versículos  38 a 42. Neste trecho, Marta briga com Jesus, ao recebê-Lo em sua casa, porque toda a tarefa doméstica estava com ela e sua irmã, Maria, não parava de ouvir o Mestre.

Entre diversos pontos, chamou a minha atenção a observação de que muitos cristãos tornam o serviço eclesiástico um trabalho extremamente cansativo. Muitos iniciam atividades pelo prazer de servir, mas, ao final, carregam o peso de um trabalho árduo. O Rev. Valdinei chamou a atenção ao fato de que Marta perdeu o foco no que fazia e passou a observar a sua irmã, assim como muitos cristãos deixam de prestar atenção em Deus e passam a focar a instituição e seus membros.

Assim, quando o foco passa a ser horizontal, corre-se o risco de desanimar ao ver as várias pessoas que não estão trabalhando com o mesmo afinco – ou nem estão fazendo nada; a nos magoar pelo serviço que fazemos e não é reconhecido; e a ficar arrasados quando, mesmo sendo os únicos a efetuar uma tarefa, ainda sermos duramente criticado.

Gostei quando foi falado que o foco do cristão não é a instituição. Muitas igrejas ainda não entendem isso. Lembrei-me da sequência do livro de Yancey, quando ele explica por que “minhas viagens para longe da igreja sempre fazem um círculo e acabam me trazendo de volta”, como fica claro nesses trechos.

“O cristianismo não é mera fé intelectual interna. Ele só pode ser vivido dentro de uma comunidade”

“Sempre que deixo de ir à igreja por algum tempo, descubro que sou eu quem sofre”

“Quando vou à igreja, aprendi a olhar para cima, ao redor, a olhar para dentro e para fora”

“A Igreja existe, não para oferecer entretenimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar a auto-estima ou facilitar amizades, mas, para adorar a Deus”

Uma igreja ensimesmada, que preza única e exclusivamente pela autopreservação não tem nada de cristã ou bíblica. Como disse o arcebispo William Temple: “[A igreja] é a única sociedade cooperativa no mundo que existe em benefício dos que não são membros”.

Comecei a falar de domingo, o que buscamos e derrapei para os problemas da igreja institucional. Se você já me conhece de outros tempos, sabe que tenho o dom da prolixidade. Mas, retomando, na verdade o que queria dizer é que os problemas não estão especialmente na igreja. “Ela” não é culpada. O problema está em nós. Pessoas que vivem um cristianismo dominical e brincam de que se relacionam com Deus.

Domingo pode ser um dia especial para comunhão, adoração, encontro. Mas, a vida de um cristão coerente é um domingo a cada dia, relacionando-se com Deus e com o próximo. Diariamente.

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