O segredo é a integração?

Voltei a andar de bike há aproximadamente 4 anos. Há 3 anos, conheci o mundo das “tribos ciclísticas”. E o meu primeiro passeio era pra ser o último! Depois de pegar o trem de madrugada, desci em Rio Grande da Serra e, na ida para Paranapiacaba, o pedivela afrouxou até soltar!!! Tudo bem, confesso que minha primeira bicicleta era muito ruim, comprada em supermercado e sem as mínimas condições de pegar estrada. Mas, o que era pra se tornar um desastre e fazer com que eu nunca mais quisesse participar de um pedal, acabou sendo o início de algumas amizades, além de me mostrar o quanto os bikers são solidários. Consegui chegar a Paranapiacaba e voltar, além de curtir muito o passeio.

A partir daí, graças às redes sociais, conheci muitos grupos de ciclistas, das mais variadas tribos. Tem “pedal” (o nome que damos às saídas ciclísticas) para os festeiros, os speedeiros, os radicais, os saudáveis, os cervejeiros, os roqueiros, os comilões, etc. E a qualquer dia ou hora que eu resolvesse sair, conseguia encontrar um grupo. E mais amizades foram se formando.

Ciclovia polêmcia embaixo do Elevado Costa e Silva (SP)

Ciclovia polêmica embaixo do Elevado Costa e Silva (SP)

Percebo que, nesses 4 anos, algumas coisas mudaram. Algumas ruins: cada vez mais, as bikes se tornam alvo de criminosos; acidentes fatais continuam a acontecer; alguns pedestres e motoristas declararam uma verdadeira guerra contra ciclistas; e ciclistas imprudentes ajudam a criar uma imagem de que a bicicleta, em si, é perigosa. Outras, boas: embora discutível em qualidade e nos trajetos, São Paulo ganhou muitas ciclovias e ciclofaixas de lazer; alguns pedestres e motoristas estão aprendendo a respeitar os ciclistas; muita gente tem trabalhado a autoestima e vivendo de forma mais saudável, graças à prática do ciclismo.

Pensei em tudo isso ao ler que estava previsto para hoje o início da implantação de suportes para bikes em cerca de mil táxis na capital paulista. O benefício será através do aplicativo da 99Táxis que, segundo a empresa, já é utilizado por 28 mil dos 35 mil taxistas que circulam por aqui. Não posso deixar de pensar que essa mudança na frota vem a partir da briga com o Uber, pois esta foi pioneira ao fazer um teste para UberBike, no último dia 18 de setembro, já implantou o aplicativo, como noticiou o IDGNow! na última quarta-feira (leia).

Ao ler essa notícia, chego à conclusão de que ainda temos muito ainda a fazer. Além de uma convivência pacífica entre ciclistas, pedestres e motoristas, é necessária uma readequação e expansão das ciclovias, associada a um aprendizado e conscientização, tanto de ciclistas, sobre velocidade e respeito quando circularem nestas vias, quanto de pedestres e motoristas.

Mas, também, passei a pensar na questão da integração entre os diversos meios de transporte. Bike, ônibus, metrô, carro, táxi, boas calçadas para circular a pé, bicicletários seguros e em diversos pontos da cidade, instalação de vestiários em empresas. Em 2010, uma ideia da prefeitura paulista interessante para transporte de bicicletas em ônibus não vingou, devido a uma norma do Contran, mas outra está em estudo, como aponta a reportagem da Vá de Bike (leia). Bom, apesar dessa linha circular ao lado de casa, eu nunca vi!!!

Faz tempo que queria começar a escrever sobre este assunto. Mas, vou parar por aqui, hoje. Aliás, só pra fechar este artigo, mesmo não sendo muito fã de comparações, quando imagino a questão da integração nos transportes lembro de algumas matérias que li sobre como tudo isso funciona no exterior, como no caso de Londres, onde dizem que as autoridades não só fazem as leis, mas também dão exemplo (leia).

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Tempo perdido?

Fazer nada parece um grande tempo perdido. (Marcelo Gleiser)

A hiperconectividade – e a ansiedade por ela gerada – nos impede de desacelerar. E, assim como temos medo da solidão física, parece que cada vez mais tememos a solidão virtual. Desconhecemos o verdadeiro sentido, prazer e necessidade dos momentos de solitude, de silêncio, de parar até mesmo os nossos pensamentos. E quando sabemos que isso é necessário, simplesmente não conseguimos desligar a “chave geral”.

Fazemos parte de uma era onde todo tempo deve ser aproveitado, otimizado e produtivo. Saímos em período de férias e nos perdemos com a quebra da rotina, falta de tarefas, “tempo disponível”.

Outro dia conversava com um amigo que não se liga em comemorações de aniversário ou passagem de ano. Falávamos que o tempo é contínuo. 31 de dezembro é um dia igual a 1º de janeiro. Ambos têm 24 horas, manhã, tarde e noite. Mas é latente ao ser humano a necessidade de estabelecer marcos em sua vida, em sua história. Ciclos com começo, meio e fim. E, ao fecharmos um ciclo, é comum planejarmos como será o próximo. Não que isso seja negativo ou prejudicial, porém pode assim se tornar quando excluímos das nossas projeções que vivemos em um ambiente social e estamos sujeitos à imprevisibilidade dos fatos.

Apesar de – ou por causa de? – hiperconectados, temos nos tornado cada vez mais individualistas. E muitas vezes nossos planos só preveem nosso bem estar, nossa ascensão, nossa segurança, a despeito até daqueles que nos rodeiam e chamamos família ou amigos. É bem verdade que temos que pensar em nós. Mas, se a nossa projeção para futuro não incluir nosso entorno, corremos um sério risco de nos tornar bem sucedidos, porém em uma redoma de vidro intransponível (tanto para sair dela, quanto para alguém entrar).

Além disso, se não aprendermos a lidar com “acidentes de percurso”, erros de planejamento e fatores externos desfavoráveis, a frustração pode tomar conta e minar todas as nossas forças, quando na verdade deveríamos desvia-las para partir para um “plano B” ou simplesmente “abortar a missão”, mas de forma consciente e positiva.

Fecho um ano difícil, turbulento e onde a imprevisibilidade pode ser uma das palavras que o resume. Desta vez, não tenho grandes planos para 2014. Brinco com amigos que chegou a hora de parar de sobreviver, para começar a viver. E, ao ler o artigo de Marcelo Gleiser hoje (confira aqui na íntegra, em inglês), até me animei a escrever o último post do ano neste blog, o que me levou a três pontos de reflexão:

– A vida existe e é muito mais divertida e real fora do mundo dos bits e bytes. A conectividade é necessária em nossos tempos, mas temos que aprender a estabelecer períodos regulares de “desintoxicação virtual” (aprendi o termo “detox” este ano…). Desligar a internet, desconectar o WiFi, às vezes até mesmo desligar o celular. Seja para simplesmente não fazer nada e aprender a “gostar mais da nossa companhia”, seja para curtirmos a natureza, seja para estarmos com a família ou com os amigos, não de forma parcial, mas inteira, completamente presentes e disponíveis;

– Se os planos para futuro não integrarem aqueles que nos cercam (família e amigos) e a sociedade como um todo (sustentabilidade, solidariedade, crescimento comum), podem até propiciar realização social, financeira e profissional, mas sempre deixarão um vazio interior;

– O imprevisível faz parte da caminhada. Talvez até seja o que a faz se tornar um desafio interessante. Porém, as decisões erradas, as decepções em razão de falhas de caráter, honestidade ou transparência de outras pessoas ou tantos outros fatores imprevisíveis, em nenhum momento devem nos impedir de continuar. A frustração é inevitável, mas deve ser passageira e o que a gerou tornar-se um ensinamento para nos fortalecer e evitar erros futuros. Passado o luto (período vital a qualquer tipo de perda), segue-se adiante.

Pode ser que você não concorde com algum dos pontos da minha reflexão. Ou com todos! Talvez daqui uns dias ou meses, eu leia e nem eu mesmo concorde… De qualquer forma, agradeço o tempo que você dispensou para essa leitura. E, tendo interesse, fique à vontade para expressar sua opinião. Aqui ou na página do blog no Facebook: http://www.facebook.com/fertilmente. No mais, um ótimo 2014!!!

ano melhor

http://www.youtube.com/watch?v=7sqbzrZxrrk

TEMPO PERDIDO

(Renato Russo)

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem
Selvagem
Selvagem

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão Jovens
Tão Jovens

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O início?

Podem me chamar de retrógrado, atrasado e até de velho. Podem me acusar de ser influenciado por matérias como OSPB (Organização Social e Política Brasileira), EMC (Educação Moral e Cívica), Estudos Sociais. Desculpe, nasci no período da ditadura e sei qual era a finalidade desta grade curricular. Pelo menos, meu colegial (antigo nome do atual ensino médio) foi depois do movimento Diretas Já, no recém-conquistado período democrático. E, melhor ainda, tive o privilégio de estudar em um ótimo colégio, onde optei pela área de Humanas e tive aulas primorosas com professores de História, Literatura, Filosofia. Lógico que conscientização, patriotismo, exercício de crítica, respeito pelas diferenças e tantos outros valores não se ensinam na escola, mas são formados no decorrer do crescimento, desde a infância. Mas, mestres que estimulam a crítica – mais do que meramente “ensinar” conceitos – podem provocar grandes mudanças nas mentes dos adolescentes e jovens. Agradeço a muitos deles pela minha atual formação.

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Bom, relembrei essas coisas ao voltar para casa após participar do chamado “6º grande ato contra o aumento da passagem”, que mais uma vez paralisou o centro histórico e o centro financeiro de São Paulo. Percebi uma manifestação pacífica, claro que com intercorrências locais, como o infeliz ato de um pequeno grupo na sede da prefeitura paulista e atos de vandalismo isolados e coibidos pelos próprios manifestantes no decorrer da passeata.

Ah, e por que citei aquelas velhas matérias no primeiro parágrafo? Elas vieram à lembrança no momento em que decidi voltar para casa, quando me deparei um pequeno grupo de jovens, que já vinha a algumas quadras da Avenida Paulista tentando inflamar a multidão, incitando à violência. O pior de tudo, covardes, pois praticamente todos estavam com os rostos cobertos. Em determinado momento, quando estávamos em frente ao MASP/Trianon, pediram a um manifestante que passava para que cedesse a bandeira do Brasil que ele carregava. A finalidade? Queimá-la. Um deles já estava com o isqueiro na mão, momento em que alguns manifestantes – eu, entre eles – o impedimos. Foi um momento tenso. Depois de vir de forma truculenta para cima de nós, nos chamarem de “moralistas” (e nós os chamarmos de “anarquistas de boutique” e gritarmos “mostra sua cara”), o grupo desistiu e seguiu caminho.

Bandeira-do-BrasilFiquei indignado. Sei que valores como o patriotismo estão desgastados, desajustados e deturpados. Mas, também acredito que o amor ao país e o sentimento de coletividade são imprescindíveis para as mudanças que nossa sociedade tanto necessita. Desde pequenos atos como devolver o troco recebido a mais, sempre respeitar as leis de trânsito, conservar o patrimônio público até – e principalmente – votar de forma consciente e acompanhar e cobrar o mandato daqueles que foram eleitos.

Tenho conhecimento que alguns dos amigos são contra essas manifestações. Eu não sou. Mesmo tendo minhas críticas e sendo franco ao admitir que vejo muitos pontos negativos. Por exemplo, tanto nas explanações no terreno virtual quanto na passeata de hoje, percebi que é nítido o sentimento de estar em um grande navio, seguindo por mares bravios, porém sem um timoneiro para dar a direção. Pautas não estão bem definidas, objetivos não foram traçados, estratégias precisam ser desenvolvidas. Porém, o ponto positivo é que o povo resolveu se mobilizar. Saiu do sofá, do ativismo virtual na frente dos computadores em suas casas e foi para a rua. A indignação não está mais apenas nas conversas de bar, nos comentários no serviço. Os meios de comunicação, como a Rede Globo e a revista Veja, começam a ser amplamente questionados. Enfim, a necessidade de uma mudança radical na esfera política brasileira parece que vem à tona.

Vai acontecer? Não é possível prever. Mas, alguma coisa, algum movimento teria que acontecer para que uma mudança tenha início. Espero que seja o sinal de que uma semente de consciência e conscientização foi lançada. E como toda a semente, será preciso tempo para descobrirmos quais frutos serão colhidos no futuro.

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Limites

Hoje me dei conta que há 29 anos eu perdi o medo do escuro e fantasmas. E sem terapia alguma. 1 mês e 9 dias após meu aniversário de dez anos, não tive mais necessidade de dormir com a porta entreaberta e com a luz do corredor acesa ou com abajur. Tudo após passar a noite – e inclusive dormir – em um cemitério. Era o velório da minha mãe adotiva, que em 28 de maio de 1984 cometeu um dos atos mais extremados que alguém pode fazer: tirar a própria vida. Além disso, olhando alguns documentos, também me dei conta que já vivi mais do que ela. Ela cometeu suicídio menos de três meses antes de completar 39 anos.

The BridgeJá há algum tempo queria assistir novamente o documentário “The Bridge” (2006). É um trabalho muito bem feito pelo diretor Eric Steel, baseado em um artigo publicado na revista The New Yorker por Tad Friend, intitulado “Jumpers“. Pois bem, acabo de assisti-lo. E as inquietações que tive quando assisti a primeira vez continuam as mesmas:
1. O que leva alguém a tirar sua vida?
2. Qual o nosso limite? (ou: Temos um limite?)
3. E, se temos um limite, o que fazer quando nos aproximamos dele?

O suicídio, independentemente do motivo, tem o efeito de uma granada. Atinge todos que estão ao redor. Família (pais, irmãos, cônjuge, filhos) e amigos invariavelmente sentirão os estilhaços. O trauma emocional vem acompanhado de perguntas como: “O que eu poderia ter feito para evitar isso?”, “Qual minha parcela de culpa?”, “Por que não percebemos a gravidade?” e, muitas vezes, “Como vamos seguir em frente?”

Há quase trinta anos atrás, não lembro de ter pensado em nada disso. Pelo contrário, aceitei de uma forma quase que natural algo que parecia ser inevitável, afinal já tinha presenciado duas tentativas anteriores. Hoje, conhecendo um pouco mais a história familiar, penso qual seria a saída, depois de internações recorrentes, de uma vida mantida à base de medicação psiquiátrica e, talvez o pior, a falta de confiança nas pessoas que a cercavam – seja por pura paranoia, seja baseada em traumas da infância e adolescência.

Albert Hsu, autor de “Superando a dor do suicídio“, apresenta um termo pouco usado no Brasil, “survivors of suicide” (sobreviventes de um suicídio), que erroneamente muitas vezes é associado àqueles que tiveram uma tentativa “frustrada” de suicídio. Na verdade, os sobreviventes de um suicídio são aqueles que conviviam proximamente com uma pessoa que tirou sua vida. Para Hsu, que vivenciou o suicídio de seu pai, o sobrevivente experimenta “um trauma psicológico igual ao dos soldados em combate. (…) Pelo menos de uma coisa temos certeza: nossa vida nunca mais será a mesma. Se continuarmos viviendo, seremos pessoas que veem o mundo de um modo muito diferente.” Anne-Grace Scheinin escreveu que o suicídio “não acaba com a dor. Ele apenas a coloca debaixo das asas quebradas dos sobreviventes.” Hernandes Dias Lopes, autor de “Suicídio. Causas, mitos e prevenção“, descreve que “a família que convive com um um indivíduo que atenta contra a própria vida fica vulnerável e insegura, além de desenvolver um grande sentimento de culpa em relação ao ocorrido.”

Diferente de outras formas de morte (acidente, doenças terminais, causas naturais), o suicídio muitas vezes é tratado com vergonha e culpa. O assunto fica mais denso quando entramos no terreno religioso. Agostinho considerava que o suicídio não é justificável e Tomás de Aquino que era uma usurpação do poder de Deus. No judaísmo, a “destruição consciente da vida” não recebe os trabalhos funerários do rabino. No islamismo, os suicidas são condenados eternamente. O hinduismo e o budismo também são contra o ato. Hsu cita um pensamento do padre Henri Nouwen sobre “morrer bem” que talvez explique um pouco esse desconforto com a atitude suicida: “Uma boa morte seria aquela que ocorre em solidariedade com os outros.” Percebo isso olhando para o passado, como o assunto da morte da minha mãe foi evitado – e o é até hoje. Porém, concordo com o pensamento do romancistas Edward M. Forster, quando afirma que “se não lembarmos, não conseguiremos entender” – mesmo que não consigamos compreender plenamente.

“Para alguns, o suicídio é uma atitude repentina. Para outros, é uma decisão que foi estudada por um longo tempo e se fundamenta no desespero cumulativo ou em circunstâncias extremas. E, para muitos, é uma mistura dos dois: um ímpeto de agir durante um período em que a pessoa enfrenta um desânimo e desespero suicidas”, conclui a psicóloga Kay Redfield Jamison, em “Night falls fast“. Um assunto difícil, mas que não deve ser ignorado. Anualmente, estatísticas apontam que no mundo inteiro um milhão de pessoas tiram a vida, o que significa uma a cada 40 segundos, sendo a 3ª causa de morte na faixa dos 15 aos 44 anos.

Na minha história pessoal, com o choque vivido pela família, olho para trás e constato que, com a completa desestrutura familiar, o que me sustentou nos primeiros anos foi a intervenção de amigos da igreja onde eu congregava, que se aproximaram e se doaram para fazer parte da minha vida. Nesse ponto, são certeiras as palavras de Henri Nouwen, quando afirma que na comunidade “a compaixão de Deus se faz presente em meio a um mundo desfeito.”

Quanto mais eu leio, quanto mais filmes assisto, quanto mais histórias de famílias enlutadas tomo conhecimento, nenhuma das três perguntas iniciais são respondidas. Porém percebi, assistindo The Bridge, que há pelo menos dois grupos de suicidas. Aqueles que demonstram explicitamente sua dor e seus planos e aqueles que escondem de forma tão perfeita, que sempre demonstram alegria, entusiasmo, interesse e companheirismo. E, na verdade, são dois grupos difíceis de interagir. Afinal, muitas vezes temos dificuldade de passar aos outros aquilo que está em nossa mente, muitas vezes nos atormentando de forma voraz. Às vezes, não queremos demonstrar nossa fraqueza. Outras vezes, não queremos incomodar os outros. E, muitas vezes, nem nós sabemos o tamanho do problema que nos incomoda. De qualquer forma, parece que duas coisas são necessárias: alguém com vontade de falar francamente e alguém disposto a ouvir sinceramente. Claro que há casos onde é necessário a intervenção terapêutica e até mesmo medicamentosa. Mas, talvez uma das maiores necessidades do ser humano seja a de ser ouvido.

Infelizmente, desconheço no Brasil entidades que trabalhem especificamente com os sobreviventes de um suicídio (conhecidas como SOS), como diversas que existem nos EUA. A que mais se aproximaria seria o CVV (Centro de Valorização da Vida).

“A ruína não é o fim da história. Nossa dor é profunda, mas não abrange tudo; nossa perda é tamanha, mas não é eterna; e a morte é nossa inimiga, mas não tem a palavra final.” (Ruth Padilla Eldrenkamp)

“End of our days”, Howie Day (trilha do documentário “The Bridge”)

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Bits, bytes e vida

Ouvindo uma conversa alheia na viagem de volta do metrô esta noite (meu “esporte” favorito, quando não tenho espaço para segurar um livro e não estou a fim de ouvir música), acompanhei o papo entre um garoto e uma garota que chamou minha atenção. Não por ser interessante, mas porque evocou lembranças de mais ou menos vinte anos atrás.

Os dois discutiam acaloradamente sobre a resolução de um problema, aparentemente de programação em informática. Falavam sobre comandos “while”, variáveis “x” e outros termos da área. Lembrei-me imediatamente dos anos de faculdade, quando desbravava as recém criadas linguagens C++, Java e VisualBasic, mas ainda me divertia com programação em Basic, Cobol, Pascal, Fortran e tantas outras, que estavam com seus dias contados, abrindo espaço para a era da linguagem gráfica.

ImagemPois é… Aprendi a fazer apresentações no HG (Harvard Graphics), o bisavô do PowerPoint; montar planilhas no Lotus 1-2-3, avô do Excel; e a editar textos no WordStar, tio do Word. Era o tempo em que para entrar no diretório raiz, digitava-se algo como “C:” no “prompt” e era necessário memorizar os comandos, pois não havia mouse, nem cursor. “Save”, “Print”, “Exit” eram digitados letra a letra.

A velocidade da comunicação era medida em intermináveis – e quase inalcançáveis – 56 kbps e muitos esperavam para acessar a partir da meia-noite, quando a TELESP (nome da atual Telefonica) cobrava apenas um pulso por ligação! Os nomes do momento eram VideoTexto, BBS, Mandic, iCQ. Mesmo com a conexão lenta, os papos eram longos e divertidos. O armazenamento era feito em disquetes, que constantemente sofriam alguma interferência magnética e eram inutilizados. XT, AT, 286, 386 e 486 eram siglas e números imediatamente associáveis.

InteratividadeNostalgia à parte, essa simples conversa de alguns minutos transportou-me às aulas de lógica de programação. E, mesmo na era de aplicativos e ferramentas de desenvolvimento super evoluídos, acho engraçado que a matéria-prima ainda é a mesma: um código binário, onde a combinação de “uns” (1) e “zeros” (0) determina tudo. Daí, a palavra bit (do inglês Binary Digit). Outra coisa interessante é relembrar o quanto um simples erro ou equívoco pode alterar todo um resultado. Na informática, há a alternativa dos “programas-teste”, dos “betas”, da simulação de resultados, onde se verifica em qual linha está o erro, para corrigi-lo. E foi justamente nesse ponto das minhas divagações que saí do mundo dos bits e dos bytes – como o fiz após “quase terminar” e desistir do curso universitário – e pensei na vida, aquele “programa” em que vivemos fazendo escolhas, alterando linhas de programação e buscando resultados. Porém, na vida, não há a possibilidade de simulação. Toda ação provoca um resultado. E, quando não é o esperado, algumas vezes podemos reparar o erro, outras vezes teremos que conviver com ele.

A velocidade da informação, a capacidade de armazenamento de dados, o acesso à tecnologia, tudo isso está em um crescente. Porém, na minha opinião, nada disso tornou o ser humano mais, literalmente, humano. Ao contrário. Acredito que nos mecanizou, nos padronizou, nos induziu a associar excesso de informação com conhecimento ou, pior, com sabedoria. Sabemos tudo sobre nada e nada sobre tudo. Conversamos sobre banalidades, caminhamos na superficialidade, ao mesmo tempo que nosso eu se afoga na profundidade da nossa dor, da nossa solidão, da nossa dúvida, da nossa crise de identidade, da nossa falta de sentido da vida.

Assim como a mudança de um número na sequência binária – 00011000 é diferente de 00001000 – altera o resultado, nossas escolhas mudam nossa forma de viver a vida e de afetar aqueles que nos cercam. Não somos uma ilha, embora muitas vezes desejemos e tentemos nos isolar desta forma. É inevitável. Nosso silêncio e nossa ação alteram o nosso entorno.

Não sei por que um comado “while” ouvido aleatoriamente levou minha mente a pensar tantas coisas. Talvez, devaneios depois de um dia cansativo. Talvez, uma necessidade de reprogramar algumas linhas do meu programa life.exe.

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Sobre crianças, sociedade, ensino, investimento, oportunidade e sonhos

Já trabalhei muito tempo com crianças, pré-adolescentes e adolescentes, de todas as classes sociais, com diferentes projetos pedagógicos, vertentes sociais e objetivos. E me assusto com algumas argumentações que voltam à tona a cada tragédia que ocorre, principalmente em relação ao tema da redução da maioridade penal. Acredito que as discussões são emocionais, superficiais, imediatistas e, em resumo, nós queremos resolver um problema crônico tratando das consequências e não das causas.

As sanções penais, independentemente da idade do infrator, já provaram ser ineficazes, tornando-se apenas uma medida para “tirar o problema” da nossa frente, “limpar” o espaço urbano, proteger-nos do “inimigo”. Não que eu seja contra a punição. Ela deve haver, ser rigorosamente fiscalizada pelo poder público e aplicada pelo Judiciário.

Por outro lado, também acredito que não seja tarefa do Estado fazer o papel que os pais deveriam – e cada vez mais deixam de – exercer, tais como o de impor limites; ensinar o respeito; saber o momento e a forma de dizer “não”, sempre explicando o motivo; e, acima de tudo, demonstrar preocupação, carinho e amor em todos os atos. Sinceramente, delegar estas obrigações aos professores (em sua grande maioria mal pagos, com condições péssimas de trabalho, em classes superlotadas e diariamente desrespeitados por alunos violentos e amparados pelos pais e pela lei) é insano, desumano e ilegítimo. O mais louco é que alguns professores são heróis e conseguem grandes vitórias. Enquanto tantos outros tombam em virtude das doenças emocionais e físicas.

Mesmo assim, fico espantado – e ao mesmo tempo feliz – quando vejo que um trabalho a longo prazo, como o que venho participando em São Paulo no Projeto Crianças Em Ação, demonstra que é possível, sim, mudar a perspectiva de vida, senão de todas, pelo menos de algumas crianças. Ser considerado o “tio chato” por impor limites, exigir – ou melhor, conquistar – respeito e ganhar a atenção é um prêmio e não motivo de desânimo. Principalmente quando, depois de um tempo você percebe mudanças sutis, mas graduais, na forma de agir daquela criança e descobre que, com o tempo, ela passa a confiar em você e até chega a agradecê-lo.

Doar o que não serve mais em casa ou até mesmo dinheiro para instituições e campanhas televisivas é fácil – alguns até acham bonito. Mas ainda considero que investir tempo e carinho em uma criança é o projeto mais recompensador que existe. Pena que são poucos que pensam e agem assim. Ainda bem que existem estes poucos que ainda sonham.

“Nós
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter”

(Este post foi ampliado de um desabafo publicado por mim, ontem, no Facebook)

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De volta

“Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja”

(Fernando Pessoa)

Muito do momento que vivo atualmente começou em 23 de dezembro de 2012, quando assisti ao vídeo “Sustentabilidade: On ou Off, de que lado você está?”:

A partir de então, planejei o que chamei de Operação 2013+OFF, uma tentativa de ir além das interações virtuais e torna-las físicas, também. Sempre fui a maluco por tecnologia, inclusive pela comunicação através das redes. Mas, também sempre fui partidário de que as redes devem ser formas para aproximar fisicamente as pessoas e não de distancia-las com uma falsa sensação de proximidade.

No final de fevereiro de 2013, em uma semana onde a solidão e a tristeza invadiram meus sentimentos, pensei em tirar um “descanso sabático” da rede que mais preenchia meu espaço virtual, o Facebook. Durante três dias tentei não acessar, mas não conseguia e aquilo me fazia mal. Já estava pensando em entrar para o Facebookólicos Anônimos, quando assisti um vídeo onde o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, 87 anos, fala rapidamente – mas com uma profundidade ímpar – sobre os laços humanos, redes sociais, liberdade e segurança:

Quando planejei o 2013+Off, pensei em alguns pontos que Bauman levanta. É óbvio – e já falei acima – que as redes sociais são necessárias, importantes e uma ferramenta de reaproximação. Mas, cabe a nós termos bom senso no seu uso. Nesse aspecto, tem sido muito bom reencontrar pessoas que se distanciaram da minha vida com o passar do tempo ou conhecer melhor outras que nem eram tão próximas e se tornam gratas surpresas em minha vida. O problema é quando, nesse processo, ficamos presos, às vezes de uma forma cruel, à necessidade de atualização e sincronização permanentes, além de acreditarmos em um falso sentimento de pertencimento, nos enganando para pensarmos que não estamos sós. Sei que, talvez, esse seja um defeito só meu. Mas, o confesso.

Então, depois de assistir ao vídeo de Bauman, no domingo (24/2) decidi ficar off-line do Facebook até o final do mês. Esses poucos dias de “descanso sabático” foram interessantes. Li um livro (“3096 Dias”, de Natascha Kampusch), voltei a nadar (3 vezes por semana), voltei a estudar piano, conversei com algumas pessoas, retomei a terapia. O saldo foi tão positivo que pretendo a cada dois meses tirar uma semana assim, longe da correria interativa da rede social.

Mas, fiquei com uma pergunta: O que busco numa rede social? Interação, exposição ou sentimento de pertencimento? Ou um pouco dos três? E, nesse universo, onde encaixar as minhas necessidades de reclusão, intimidade e privacidade?

Não cheguei a uma conclusão. Porém, percebi que aqueles – como eu – que convivem com os fantasmas do desprezo, do abandono e da rejeição possuem um espinho na carne cuja dor tentamos amenizar publicando coisas e esperando um “curtir”, um “compartilhar” ou uma mensagem in box. Mas, na realidade, essa dor só é amenizada graças aos poucos amigos que te fazem sentir querido e amado através de um abraço, de um ombro para chorar, de uma mão segurando a sua quando você está fraco. Amigos que se tornam verdadeiros portos seguros e calmos na nossa jornada em meio do temporal da vida.

Como escrevi um tempo atrás, não existem amigos ou o amigo perfeito. Existem amizades onde duas pessoas buscam a excelência, buscam um relacionamento o mais perfeito possível dentro das nossas dificuldades, imperfeições, falhas, egoísmos e histórias. Amigos verdadeiros respeitam-se mutuamente. Suas falas e seus silêncios. Suas atitudes e seus vacilos. Amigos verdadeiros quase nunca precisam declarar-se um para o outro. Eles sabem o sentimento que os une. Já dizia o rabino Harold Kushner:

“Temos que dar espaço na nossa vida para pessoas que às vezes nos decepcionam ou exasperam. Se esperamos que nossos amigos correspondam a um padrão de perfeição e se eles também nutrem essa expectativa em relação a nós, acabaremos bem mais sozinhos que desejávamos.”

Por outro lado, também percebi que há coisas que temos que fazer por nós mesmos, sozinhos. Por exemplo, muitas vezes somos encarcerados pelos nossos próprios medos e esperamos que outras pessoas nos tirem do calabouço, quando a chave para essa prisão só nós dispomos. Outra coisa que aprendi é que quando começamos a amar o outro sem nos amar primeiro, caminhamos para a dor e para a insatisfação. É necessário aprender a cuidar mais de mim, antes de querer cuidar de outra pessoa. Preciso aprender a me amar mais, para ter amor para com o outro. Tenho que me perdoar, para perdoar o outro. Neste processo, preciso aprender a dizer “não”, a estabelecer prioridades e a buscar discernimento para tomar decisões sábias, ciente de que algumas nem sempre irão me agradar. Uma dessas coisas é a necessidade que temos, às vezes, de apagar algumas coisas – e pessoas – boas que fizeram parte da nossa vida, muitas das vezes até mesmo para preservar essa outra pessoa. O duro é que, para apagar o que aconteceu de bom, a dor e o sofrimento parece ser infinitamente maior do que para esquecer algo ruim. Acredito que isso aconteça porque aqueles que já sofreram muito criam uma espécie de couraça, uma segunda pele que os torna menos sensíveis à dor – e ao mesmo tempo insensíveis para sentimentos bons como carinho e amor. E quando alguém surge e rompe essa couraça, abre-se a possibilidade de se experimentar o que é ser amado, mas também se elimina a proteção e passamos a sentir a totalidade das dores e do sofrimento, principalmente quando, seja qual for o motivo, nos distanciamos de quem proporcionou tal abertura.

Finalmente, nesta semana sabática cheguei à conclusão de que, embora o imprevisível me assuste, o previsível me enfadonha. E, para se caminhar rumo ao imprevisível, preciso de pessoas que também se disponham a vencer seus medos para caminhar comigo nessa jornada ou, na “filosofia Dory”, disponham-se sempre a “continuar a nadar”. Sabedoras que estarão sujeitas à dor e ao sofrimento. Mas, também, que nunca estarão sozinhas. Por isso, aos amigos que sempre estiveram próximos a mim, não só nos momentos alegres, mas também quando eu mais precisei – vocês sabem quem são – , saibam que I’ll be there for you, too, always…

“So no one told you life was gonna be this way
Your job’s a joke, you’re broke, your love life’s D.O.A.
It’s like you’re always stuck in second gear
When it hasn’t been your day, your week, your month,
Or even your year, but…

I’ll be there for you (when the rain starts to pour)
I’ll be there for you (like I’ve been there before)
I’ll be there for you (’cause you’re there for me too)”

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